As aflições da geração digital

Não é novidade que as crianças e jovens de hoje são capazes de pesquisar no Google, falar ao celular, consultar as redes sociais – tudo praticamente ao mesmo tempo. É uma das principais características da chamada “geração digital”. Embora todas essas atividades pareçam naturais, os pais e a escola devem ficar atentos. Especialistas afirmam que o uso excessivo da internet e de outras tecnologias pode ser um sintoma de que outras áreas da vida de crianças e adolescentes não estão bem.

Quando problemas como depressão, falta de concentração, isolamento e agressividade em crianças e jovens são causados pelo excesso de internet, celular e videogame, alguns psicólogos e psiquiatras caracterizam este quadro como “tecnoestresse”. Porém, para Carlos Esteves, psicólogo e especialista em análise do comportamento, o uso da tecnologia deve ser considerado dentro de um contexto mais amplo. “Quando ela é a única forma de interação social, é possível que existam problemas de outra natureza”, alerta.

Esteves acredita que o uso em excesso dos recursos tecnológicos é mais um sintoma do que um problema. Segundo ele, há uma grande probabilidade de que crianças e jovens que apresentam um comportamento extremo de isolamento, por exemplo, (e que consequentemente passem muito tempo navegando ou em jogos online), tenham, na verdade, problemas de relacionamento social que podem estar associados à falta de habilidade para lidar com um grupo ou que seja vítima de um ambiente aversivo deste grupo.

“Portanto, atribuir problemas de natureza emocional ao pseudo tecnoestresse pode tirar o foco da real dificuldade na vida desses jovens ou crianças. Mais uma vez estaremos olhando para o sintoma ao invés de identificar as variáveis que controlam estes comportamentos”, salienta.

O psicólogo também acredita que, mais do que procurar sintomas nos filhos, os pais devem estar atentos ao tipo de relação que mantêm com eles. Ele explica que crianças menores tendem a disputar a atenção de seus pais e, se não forem atendidos, podem voltar sua concentração para outras atividades, como jogos online. Já na adolescência, é comum que os jovens busquem muito mais a atenção do grupo de amigos do que a dos próprios pais, recebendo deles outras influências e atitudes.

 

O segredo é limite

Carlos Esteves concorda que muitas horas diárias na frente do computador ou à mercê de tablets e smartphones podem trazer muitos prejuízos à saúde, como obesidade, problemas de coordenação motora, de concentração, de visão, de sono, entre outros. Mas para ele, a tecnologia não pode ser encarada como uma vilã dos tempos modernos. “É preciso compreender que a tecnologia e a internet fazem parte da vida cotidiana na sociedade atual. Portanto, saber lidar com elas pode ajudar na integração do filho com a sociedade”, reforça.

De acordo com o psicólogo, o segredo é o limite, que deve ser imposto à vida das crianças desde muito cedo. “Obviamente, elas não sabem como lidar com as rotinas diárias e tendem a entrar em conflito entre aquilo que lhes é agradável a curto prazo versus ao que é adequado”, explica.

Nesses momentos a família deve ser firme, mesmo quando for testada pelos filhos, e encarar as regras para uso da internet e celular como as demais normas da casa. “Aqueles pais que conseguem trabalhar sistematicamente com os filhos nas diferentes atividades da vida diária, muito provavelmente não terão dificuldade para lidar com o uso das tecnologias”, completa.

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