A humanidade e o homem

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Hélio Guilhardi é professor e fundador do Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento de Campinas (ITCR). Além de oferecer vários cursos e palestras, Guilhardi tem mais de 40 anos de experiência na prática clínica e na formação de profissionais. Convidamos o psicólogo para falar das aflições e perspectivas futuras do homem de hoje. Onde estamos e onde vamos chegar? Qual o rumo da humanidade? Confira a entrevista completa:

NTCR-C: Hoje vivemos uma “era digital” que parece afastar as pessoas em seus relacionamentos. Não é incomum, por exemplo, observamos um casal ou um grupo de amigos em um restaurante, cada pessoa entretida com seus telefones. Ver essa mudança de comportamento nos relacionamentos é uma questão que te preocupa?

Hélio Guilhardi: Muito! A introdução da “máquina” mediando interações humanas, interfere em algum grau – nada desprezível – na natureza do Homem. O desenvolvimento natural do ser humano exige interação direta entre as pessoas: ouvir-lhes a voz, vê-las, tocá-las e ser tocado, sentir-lhes o cheiro, o calor etc. Estamos gradual e progressivamente nos afastando uns dos outros, com a ilusão de que o mundo cibernético mais nos aproximou. O que é verdade… em certa medida! Não é uma verdade absoluta. Acredito que o processo é irreversível e temos que nos preparar para a realidade: o mundo virtual tornou-se real. Como primeiro passo, sugiro que haja limites para as interações através de “aparelhos” digitais e que haja, simultaneamente, uma retomada consciente da expansão das interações sociais diretas. As pessoas já vinham se afastando uma das outras por muitas razões e os “aparelhos”, que prometem conectá-las, ocuparam o vazio socioafetivo que já vinha se ampliando através de gerações. Não foram eles causa do empobrecimento social direto; tão somente o agravaram com a aparência de tê-lo solucionado. A intensidade das comunicações sociais através da tecnologia digital mimetiza o isolamento das pessoas. Tal ilusão é perigosa, pois enfraquece qualquer ação reparadora. A história do desenvolvimento do Homem e da Cultura mostra o esforço através dos séculos na busca de uma vida e de convivências mais saudáveis. Há necessidade de que o afetivo das pessoas seja preservado, a fim de que haja equilíbrio entre as contribuições do mundo digital e os perigos que lhe são inerentes. É na história cultural que podem ser encontradas pistas para esse tão necessário equilíbrio.

 

NTCR-C: O modo de lidarmos com o tempo sempre passou por mudanças e sempre esteve muito ligado ao modo como as sociedades recebiam as informações. Hoje, as informações chegam muito rápido, ao tempo de um clique. Em sua opinião, quais são os impactos dessa relação homem x modo de lidar com o tempo na sociedade de hoje? O fato de hoje tudo parecer muito fácil e ágil nos torna mais exigentes, mais impacientes?

Hélio Guilhardi: As condutas e os sentimentos humanos são fortemente influenciados e alterados pelos avanços tecnológicos. Em alguns casos essa relação é benéfica (considere os avanços da medicina, por exemplo), em outras perniciosa (avalie as consequências do desenvolvimento de armas…). A velocidade apontada na questão aumenta a ansiedade, a sensação de “por fazer”, “por aprender” etc., que acrescentam exigências periféricas para o desenvolvimento humano: não precisamos de tanto, nem tão rapidamente para vivermos melhor. A aceleração imposta pela informação empurra o ser humano para um ritmo que interfere com o lazer (este também acelerado), com o repouso, com a reflexão, com a interação descontraída com o outro… O “Maria Fumaça” nos permitia o encantamento com novas paisagens; o “supersônico” nos transporta alienados da natureza. Os ganhos compensam as perdas? Pessoas digitais se apresentam aos saltos, se afastam aos saltos, se conectam por saltos, se desconectam por saltos. As mudanças graduais possibilitavam tempo para ocorrer uma adaptação ou preparação: o movimento do mundo é analógico; as relações se constroem e se desconstroem num processo analógico. Os saltos quânticos não fazem parte de nossa experiência sensorial. Somos introduzidos à realidade digital e por ela estamos sendo formatizados; pelo bem, pelo mal! Trata-se de um novo paradigma de vida que está sendo assimilado sem mecanismos reguladores e sem a necessária compreensão. O mundo virtual nos invade como um vírus, contra o qual o organismo não tem defesa!

 

NTCR-C: Ainda falando dessa “era digital”, existem diversas discussões sobre o comportamento dos indivíduos nas redes sociais. Muitos defendem que nelas a pessoa constrói um personagem com comportamentos e opiniões que julga ser de aceitação de um determinado grupo. O senhor concorda com esta visão? E há algum risco de o indivíduo que está presente hoje nas redes sociais perder sua identidade fora do ambiente virtual?

Hélio Guilhardi: O mundo virtual – como o conhecemos – deu acolhimento a fantasias, as quais são comportamentos naturais regulatórios das aflições humanas, mas tornou-as instrumentos de manipulação social. As pessoas se tornam personagens virtuais de suas fantasias e, através do anonimato permitido pelo mundo virtual, atuam nas relações como se fossem o que desejam ser. A reação do outro pode confirmar a possibilidade de a fantasia tornar-se realidade e produzir transtornos – que ainda não fazem parte formalmente dos manuais de patologia psicológica e psiquiátrica, mas o farão em futuro próximo – nos quais as pessoas perdem controle sobre sua própria identidade e passam a viver na realidade virtual suas fantasias, que se desmoronarão quando ocorrer a avaliação da realidade. O engodo aplicado ao outro, torna-se um autoengodo com sérias consequências emocionais. Outra consequência previsível, que já vem se confirmando, é a cristalização do isolamento social da pessoa. Protegida num mundo restrito, a pessoa vive o que lhe agrada e perde a consciência de sua alienação, assim mergulhando num abismo que a afasta cada vez mais do mundo real, que se vai esvanecendo até completa solidão. As relações estabelecidas no mundo virtual não se mantêm e o desencanto resultará numa pessoa anêmica de afetos, incapaz de reagir!

 

NTCR-C: Como você enxerga o futuro desta geração que hoje já nasce conectada? Como tende a ser o comportamento dela diante do mundo e da relação com o tempo e com o próximo?

Hélio Guilhardi: A geração conectada vem sofrendo uma mutação. Chamo de mutação uma mudança caracterizada por um salto, uma brusca mudança de paradigma existencial. Isso é perigoso, desagregador e origem de crises de identidade, de sentimentos, de relações afetivas, de vínculo interpessoal. Ninguém está preparado para conceituar, nem para lidar com tamanhas diferenças entre o anterior e o atual. As gerações que enfrentam a transição presente ficarão cada vez mais desorientadas e destituídas de uma bússola segura. Novos caminhos terão que ser construídos, reconhecidos e percorridos com todos os reveses (e também sucessos) inerentes ao novo. O mais crucial é que o novo compõe um todo; não é uma particularidade. Por isso mesmo, mais difícil de ser assimilado pelos “de antes”, aqueles que viveram no período pré-virtual. Os pais não reconhecerão com precisão os filhos, os filhos ficarão vagando em busca de referências se redescobrindo e se reconstruindo sem poder se perguntar para onde? Até onde? Para quê? Como? Serão propostas novas questões (as velhas pouco valem…) e respostas serão construídas; não encontradas. Pode ser uma transição para um renascimento do Homem. Até lá nada sintetiza melhor este momento do que a constatação de que vivemos numa sociedade líquida, conforme conceito de Bauman.

 

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