Os desafios dos jovens que se mudam de cidade para estudar

Morar sozinho: muitos desafios e oportunidade de amadurecimento para jovens.

Morar sozinho: muitos desafios e oportunidade de amadurecimento para jovens.

A entrada na faculdade é sempre um período marcante na vida de qualquer pessoa. E são muitos os jovens que precisam mudar de cidade e morar sozinho para iniciar seus estudos no ensino superior. Como pessoas de 17, 18 anos conseguem lidar com tantas mudanças? Como a família pode ajudá-las? O Blog do NTCR-C entrevistou a psicóloga Thais S. Meira Barros Rocha, que traz reflexões importantes sobre o tema.

NTCR-C: Quando um jovem chega aos 17, 18 anos, muitas vezes precisa mudar de cidade para cursar a universidade. Certamente, a transferência de cidade implica mudanças que vão além de adaptar-se a uma nova cidade. Como o jovem e sua família podem se preparar para esta nova fase?

Thais Barros Rocha: As mudanças ao sair de casa para ir para estudar são muitas, pois combinam a mudança de cidade com o ingresso à faculdade, que exige repertórios de autonomia e dedicação aos estudos de modo diferente do Ensino Médio. São mudanças com diferentes graus de dificuldade, como ter que planejar seu dia a dia, preparar suas refeições, cuidar de seu espaço, organizar suas finanças, se organizar nos estudos e atividades acadêmicas, aprender a morar/conviver com outras pessoas que não os familiares, ou aprender a morar sozinho.

A preparação começa quando a família cria condições para o desenvolvimento de sentimentos de responsabilidade ainda em casa e pode começar desde a infância, com o estabelecimento e a cobrança no seguimento de algumas regras básicas para o dia a dia que levem à autonomia, como cuidar de seu material escolar, organizar os brinquedos, cuidar de seus pertences quando vai dormir na casa de outra pessoa, independência nos auto cuidados etc. É sempre importante deixar claras as consequências do seguimento, ou não destas regras. Vale ressaltar que as regras precisam ser bastante claras, e ter consequências amenas muito bem estabelecidas e descritas para o caso de seguimento e para o caso de não seguimento. E, claro, tais consequências precisam ser aplicadas.

São essas regras que desenvolvem os sentimentos de responsabilidade, auxiliam no desenvolvimento da autonomia a também ajudam a desenvolver uma pessoa com mais capacidade de adaptação e organização. Estudantes que moram juntos, certamente terão menos problemas com aqueles que pagam suas contas em dia, que cumprem sua parte nas tarefas de limpeza e organização do ambiente etc.

 

NTCR-C: Quais seriam os principais desafios que um jovem nesta condição pode encontrar?

Thais Barros Rocha: Isso pode variar muito dependendo da história de vida de cada um, mas dentre os mais importantes, aprender a administrar seu tempo e cuidar por conta própria de sua vida acadêmica.

Na organização do tempo está implícito a organização do dia a dia, pois quando o adolescente mora em casa, muito provavelmente conta com ajuda dos familiares para isso. Morando fora, muitas vezes com recursos financeiros mais moderados, o estudante precisa desenvolver repertórios que o ajudem a prever suas prováveis demanda do cotidiano: se planejar para o estudo, provas e atividades acadêmicas em paralelo a outras atividades simples e necessárias, que inevitavelmente exigem tempo, como preparar sua alimentação – que implica em ir ao supermercado, preparar os alimentos – pagar suas contas em dia, cobrar dos colegas a divisão do orçamento, cuidar da limpeza da casa, das roupas etc.

Morar longe também pode ser um desafio, principalmente para aqueles que não conseguem voltar para casa aos finais de semana, por conta da distância, ou do custo. É possível que o jovem passe a conviver com colegas que também vivem longe de casa e assim constroem uma convivência que exige saber respeitar as necessidades e o espaço do outro, assim como ser sensível às necessidades do outro, a fim de construir e preservar uma boa relação.

Para os familiares, além do inevitável suporte financeiro – pois é pouco provável que um estudante consigo arcar com suas despesas sem ajuda – é sempre importante oferecer suporte emocional e supervisionar a vida acadêmica do filho. Infelizmente não são incomuns situações em que o aluno chega a perder a matrícula na universidade por mau desempenho, mas a família demora a saber disso.

 

NTCR-C: Como lidar com a “liberdade”, no sentido de que, se antes o jovem estava sob o olhar dos pais, agora tem mais autonomia para fazer suas atividades e realizar suas escolhas?

Thais Barros Rocha: A liberdade é importante e oferece oportunidade para o jovem amadurecer, desde que os sentimentos de responsabilidade já tenham sido de alguma forma cultivados em casa, pelos familiares.

Inicialmente,  alguns jovens podem abusar dessa liberdade, principalmente por sentirem que não estão na presença do “olhar repressor” dos pais, quando se trata de sair em excesso para festas, ou do consumo de álcool. Quando o adolescente já tem alguns sentimentos de responsabilidades desenvolvidos,  ao longo do tempo com as demandas do dia a dia, as regras que aprendeu na casa dos pais podem começar a fazer sentido. É bastante comum casos em que os jovens passam a valorizar mais a família depois de sair de casa, o que demonstra que ficar livre e solto é bom, mas ter alguém que cuide também é.

O acompanhamento familiar é importante – sem excessos, claro, respeitando a idade do filho e entendendo atitudes normais e desejáveis na fase que ele está vivendo. Famílias que contingenciam tudo pelos filhos, se preocupando com tudo por eles, não agregam nesse processo. Entretanto, exercer influências é fundamental, ter controle financeiro por exemplo, é algo que está sempre ao alcance dos pais, e permite identificar o que ocorre na rotina do filho, dialogar com os filhos também.

 

NTCR-C: A mudança de cidade por conta dos estudos é uma boa oportunidade para o jovem amadurecer? Neste caso, qual é o papel da família para incentivar e ajudar neste processo de amadurecimento?

Thais Barros Rocha: Sim. Sem dúvidas. O desenvolvimento e amadurecimento precisam ver vistos de modo global e não somente acadêmico. Ao ter que viver longe da família o jovem é levado a experimentar novos desafios e isso contribui para sua formação pessoal à medida em que o novo ambiente fornece condições para o desenvolvimento de repertórios comportamentais que levem a autonomia, independência, adaptabilidade, responsabilidade. Neste contexto, o papel da família é fundamental: ao mesmo tempo que supervisiona e cuida, permite que o jovem entre em contato com as experiências desta fase da vida, que vão modelando, desenvolvendo e formando seu perfil com valores e aprendizagens importantes para vida toda.

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