Como superar o fim de um relacionamento?

Como-superar-o-fim-de-um-relacionamentoJá diz o título de um livro do cronista Paulo Mendes Campos: o amor acaba. Nem sempre estamos prontos para o fim de um relacionamento. Porém, existem alguns sinais que mostram que a relação a dois já não vai mais bem. E, mais importante, é preciso reunir forças para recomeçar, afinal um novo começo pode trazer boas surpresas.

Conversamos com a psicóloga Renata Cristina Gomes sobre o tema. Confira.

Blog NTCR-C: Aceitar a separação (isto é, quando o parceiro anuncia ao outro que deseja o fim da relação) é sempre difícil. No entanto, nunca é uma decisão tomada rapidamente. Existem sinais que mostram que há algo que aponte para o fim do relacionamento? Como percebê-los e como encará-los?

Renata Cristina Gomes: Algumas variáveis parecem-me importantes para manutenção da qualidade de uma relação estável. Talvez seja interessante partir da premissa que, se estas variáveis não estão presentes, esse é um indício importante de que o relacionamento possa estar desgastado e com possibilidade de chegar ao fim. Quanto maior o número desses aspectos ausentes, maior seria a probabilidade de que o relacionamento fracasse. Vou começar pelos aspectos relacionados àquilo que Skinner chama de primeiro nível de variação e seleção comportamental, o nível filogenético (seleção para espécie): os aspectos eróticos. Se os parceiros tem boa cumplicidade na hora do sexo (sabem dizer o que os agradam mutuamente, estão dispostos e disponíveis para o contato sexual, experimentam coisas novas que pareçam ser prazerosas para ambos, etc) e se são sexualmente atraentes entre si, esses seriam fatores que contribuiriam bastante para a qualidade do relacionamento. Logo, seria importante que houvesse diálogo aberto sobre a prática sexual do casal e que os parceiros tivessem um tempo para cuidar de si e da própria aparência.

Mas o sucesso de uma relação não depende e não se define somente pelos aspectos eróticos. Comportamentos relacionados aos níveis ontogenético e cultural (2º e 3º níveis de variação e seleção comportamentais, respectivamente) são também importantes preditores do sucesso (ou não) da relação conjugal. Estou me referindo aqui a comportamentos que o indivíduo emite em relação a si mesmo e àqueles emitidos em relação aos outros. Parece importante que pelo menos eventualmente o casal seja mutuamente reforçador entre si e que se engaje em atividades igualmente reforçadoras para ambos, isto é, que os parceiros apreciem a presença um do outro e as experiências que partilham. Para tal, seria importante dedicar um tempo a estarem juntos desfrutando de uma atividade prazerosa ou amena (um jantar a dois, um filme em casa, um momento para conversar antes de dormirem, etc). O ponto seria: o casal encontra tempo para “namorar”?

Além disso, para que os membros do casal mantenham-se interessantes um para o outro, seria fundamental investir em atividades paralelas e particulares a cada um, isto é, que ambos tivessem espaço para fazer suas próprias coisas, em companhia de outras pessoas (trabalhar, ter um hobbie, ter tempo exclusivo com os amigos, etc). Aqui a pergunta seria: há vida fora desse relacionamento? Um último aspecto a ser considerado é: o quanto os parceiros são mutuamente sensíveis às necessidades do outro? Saberiam dizer do que o companheiro gosta, o que o desagrada, quais são suas necessidades? Geralmente levam isso em consideração ao comportar-se? Sentem-se amparados e compreendidos? Cuidam um do outro? Se as respostas a essas questões são, em sua maioria, negativas, é sinal de alerta.

 

Blog NTCR-C: Quando se está em uma relação amorosa, nunca se pensa, claro, em seu término. Porém, o amor pode acabar e a relação, terminar. Como lidar com ideia de que o amor pode acabar, estando em uma relação? E após o seu fim, como lidar com o fim do sentimento amoroso?

Renata Cristina Gomes: O amor é produto da forma como o casal interage entre si e com outros aspectos da vida que partilham (ex: como encaram as dificuldades financeiras, a criação dos filhos, a organização da rotina etc). Portanto, o sentimento mútuo deriva diretamente dos comportamentos que um emite em relação ao outro na vida a dois. Isso quer dizer que é preciso estar o tempo todo atento a possibilidade de que o amor acabe, pois se os parceiros param de se comportar para manutenção do bom relacionamento, ele inevitavelmente vai deteriorando. A melhor forma de evitar esse desfecho é cuidar da relação, observando os aspectos que apontei na resposta à pergunta anterior. Quando o amor termina, as pessoas se veem muitas vezes tendo que reestruturar boa parte de suas vidas. Perde-se não só um parceiro, mas companhias, amizades, compromissos, endereço… Em termos comportamentais, é uma grande alteração nas contingências operando e que muitas vezes implica em perda de reforçadores e de importantes contextos antecedentes. (Entende-se por contextos antecedentes o que cada parceiro na relação faz para evocar comportamentos do outro. Assim, convidar para sair, para ver um show, para um programa com amigos comuns do casal etc.

Cada um deve criar condições para que o casal curta juntos bons momentos. Não se deve esperar, enfim, que os bons momentos a dois aconteçam. Deve-se faze-los acontecer) Portanto, todas essas perdas implicam em um processo de luto que, como tal, envolve sofrimento. É fundamental que as pessoas permitam-se expressar esse sofrimento, mas mais fundamental ainda é não permitirem que ele impeça de fazer o que é de fato necessário para superar o fim do amor: reconstruir a vida. Passar a responder a novas contingências. Isto é: buscar novas companhias, amizades, compromissos, etc.

 

COS1008056B.jpgBlog NTCR-C: E o que pode levar ao fim da relação amorosa?

Renata Cristina Gomes: Até agora tenho citado variáveis pertinentes à própria relação, mas é inegável que algumas relações amorosas terminam também por influência de variáveis que lhe são externas, como: mudanças de emprego (que implicam em mudanças geográficas ou de condição financeira); o interesse por um terceiro; diferenças irreconciliáveis de valores morais, políticos ou religiosos; pressão familiar ou de amigos etc. As possibilidades são inúmeras e muitas vezes fogem ao controle do casal. Justamente por isso o foco dos parceiros deve estar sobre os comportamentos que eles próprios emitem em prol ou não da manutenção desse relacionamento. Quanto mais o casal cuida daquilo que lhe cabe, menor o impacto de eventos externos sobre sua harmonia.

 

Blog NTCR-C: Muitas pessoas sentem receio de sair de uma relação e recomeçar a vida, seja o momento a sós, seja uma nova relação. Como reconhecer que é preciso recomeçar? E como encarar esta nova fase?

Renata Cristina Gomes: A mudança amedronta. As pessoas sentem-se mais seguras lidando com aquilo que conhecem (e que tem repertório para lidar), mesmo que seja uma relação falida, do que se expondo à incerteza. Isso ocorre porque muitas vezes fixam-se na ideia de que o desconhecido é necessariamente ruim ou, ao menos, pior do que o que foi experienciado (ficam sob controle de regras e autorregras disfuncionais, respondem excessivamente sob controle de supostos estímulos pré-aversivos). Concretamente, essa previsão não se sustenta. Quando a pessoa passa a estar sozinha ou decide buscar uma nova relação, tem igualmente chances de ser bem ou mal sucedida. Ajuda (e muito) encarar essa nova fase com o foco nas boas oportunidades e em previsões realistas. Com tantas pessoas no mundo, é estatisticamente impossível que não haja por aí alguém com quem ter um bom relacionamento. Mas não basta ter boas expectativas: é preciso comportar-se para concretizá-las.

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