Qual é o segredo de relacionamentos duradouros?

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Os atores Tarcísio Meira e Glória Menezes estão casados há 52 anos e ainda demonstram ser muito apaixonados. “A gente ainda se paquera muito. Ainda tem muito romance. Sempre o achei um gato. Ele se tornou um senhor maravilhoso”, revelou Glória recentemente ao jornal O Globo. Olhar um relacionamento como o deles nos faz perguntar: qual é o segredo de relacionamentos duradouros? Entrevistamos a psicóloga Thais S.M. Barros Rocha, especialista em psicologia comportamental, para falar sobre o assunto.

NTCR-C: Em um relacionamento, com o passar do tempo, o convívio pode se tornar um problema, trazendo ruídos para a relação. Como superá-los? Como lidar com aquilo do outro que incomoda?

Thais Barros Rocha: Os casais que completam muitos anos juntos, 20, 30, 50 anos de relacionamento, certamente já passaram por dificuldades que precisaram aprender a superar. Ninguém vive tanto tempo em lua de mel.

É fato que, quando pessoas de origens diferentes, com histórias de vida diferentes se unem com um objetivo comum, para viverem juntos e formar uma família, terão que aprender constantemente a conviver bem ao longo do tempo. Isso por que relacionamentos longos enfrentam as mudanças inerentes às diferentes fases da vida de uma pessoa. Quem começa namorar cedo, na adolescência, por exemplo, vai vivenciar mudanças quando chegar a hora da faculdade e cada um for para um caminho; mesmo quem namorou por bastante tempo, vai enfrentar mudanças no relacionamento ao morarem juntos, se cada um vivia com sua família, ou morava só; a chegada de um filho também altera a dinâmica de um casal e assim por diante… Novas fases da vida exigem novas habilidades e novos recursos, de comportamentos e sentimentos, para administrar as mudanças.

Saber identificar e expressar o que incomoda em relação ao outro é um bom ponto de partida para lidar com os problemas, assim como saber ouvir e, principalmente, validar o que outro sente, ou seja, estar aberto para mudar e ceder também e não só esperar a mudança do outro.

 

NTCR-C: Outro ponto que parece “murchar” a relação é a rotina. Como escapar dela? O que podemos fazer para ter algo sempre novo no relacionamento?

Thais Barros Rocha: A questão da rotina é interessante porque tem alguns pontos diferentes. Se a rotina significar previsibilidade em relação aos comportamentos que me agradam do outro, sinto mais confiança na relação, ou seja, não é um problema, muito pelo contrário. Identificar algo como familiar e conhecido é bom e dá segurança, tanto é que, perder algo bom da rotina faz as pessoas se incomodarem.

O ponto que pode se tornar um grande problema tem a ver com a previsibilidade dos comportamentos que desagradam – e geram sempre as mesmas brigas; ou que agradavam no passado, perderam o efeito com o tempo, mas as pessoas continuam fazendo sempre do mesmo jeito por hábito. Por exemplo: sair para comer pizza juntos numa sexta-feira é bacana. Mas, sair toda sexta-feira, ir no mesmo restaurante, pedir sempre os mesmos sabores da pizza (e as vezes até conversar sobre as mesmas coisas…) é uma chatice.

No dia a dia normalmente os casais tendem a abandonar comportamentos de “conquista”, como demonstrações de amor e carinho, levando a certa acomodação. Alguns deles acabam se dando conta de que passam longos períodos sem se beijarem, por exemplo. Coisas do tipo não deveriam deixar de ser feitas. Quando as pessoas se separam elas resolvem (depois de um tempo, claro…) mudar a vida e decidem cortar o cabelo, emagrecer, fazer aquela viagem que queria fazer há tempos, mudar os móveis da casa etc… Por que não fazer isso enquanto estão casadas?

 

NTCR-C: Em uma relação, parece sempre mais fácil apontar os defeitos e as falhas do outro. Ou seja, olhar para si

Sobre as reclamações sobre o parceiro ou a parceira (o que pode trazer atritos à relação), Thais aconselha: "Quem sofre é que precisa aprender como lidar com o problema, mesmo que esse problema não seja gerado por ele mesmo. E isso deve acontecer, não para melhorar para o outro, mas sim para melhorar para si mesmo".

Sobre as reclamações sobre o parceiro ou a parceira (o que pode trazer atritos à relação), Thais aconselha: “Quem sofre é que precisa aprender como lidar com o problema, mesmo que esse problema não seja gerado por ele mesmo. E isso deve acontecer, não para melhorar para o outro, mas sim para melhorar para si mesmo”.

próprio parece sempre mais complicado. É isso mesmo que ocorre? Se sim, isso gera atritos no relacionamento? E como, então, olhar para si próprio dentro da relação?

Thais Barros Rocha: Isso acontece, muito. É sempre mais fácil dizer que o outro está errado e assim, não se precisa fazer nada para mudar, ou o sentimento é de que não há nada que se possa fazer. Muitas pessoas, por exemplo, se recusam a procurar psicoterapia de casal porque dizem que o problema está no comportamento do outro e não no seu, então, concluem que não adiantaria. Estão erradas.

É quem tem uma queixa que deve buscar psicoterapia, se o outro não procura, talvez a situação não esteja tão ruim para ele ainda. Quem sofre é que precisa aprender como lidar com o problema, mesmo que esse problema não seja gerado por ele mesmo. E isso deve acontecer, não para melhorar para o outro, mas sim para melhorar para si mesmo. Nossos sentimentos só mudam quando mudamos nossos comportamentos.

Culpar sempre o outro, sem se colocar como parte do problema piora muito uma relação para os dois lados, tanto para quem ouve o tempo todo que está errado e se irrita, quanto para quem se vitimiza e não consegue pensar em como agir para que a situação melhore.

Conversar com o outro sempre é um bom começo, mas lembre-se de descrever como você se sente quando está incomodado em vez de apontar o problema do parceiro. É melhor: “me sinto envergonhado quando você age assim na frente de outras pessoas”, em vez de: “você sempre quer ficar chamando atenção dos outros”.

 

NTCR-C: O que há em comum nos relacionamentos duradouros? 

Thais Barros Rocha: Alguns pontos são bem importantes, o amor é fundamental, mas muitos casais que se amam não conseguem manter uma relação se não desenvolvem um aspecto importante do amor: a empatia, habilidade de se colocar no lugar do outro.

Outro ponto importante é saber que o responsável pela sua própria felicidade é você mesmo, o outro vem para dar ainda mais graça para as coisas na sua vida, mas não é necessariamente responsabilidade do seu parceiro manter a sua felicidade. Quem não está bem consigo mesmo tende a culpar o outro por isso. Quem se vê como responsável por seu projeto de vida e busca isso – valorizando amizades, tendo um ocupação (pode ser um trabalho, ou qualquer coisa em que você se sinta realizado em fazer), consegue se manter fazendo coisas prazerosas, como hobbies etc – tem grandes chances de desenvolver uma relação saudável, com respeito, companheirismo e cumplicidade.

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